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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

CARCINOIDE?! AÍ, VEIO A DEPRESSÃO. O BICHO PAPÃO.




      Exigir que a vítima do câncer encare tudo numa boa é uma judiação. É gente que não sabe o que faz. 
      Não sabe o que fazer mas quer ajudar? Faça-se presente, dê o ombro ao amigo... Mas não fique com blá-blá-blá. Providencie para que ele vá ao psiquiatra (se ele concordar, é claro) que é quem vai poder ajudá-lo. A ajuda espiritual também é importante e decisiva. 
       O "infeliz" há de ter, pelo menos, o direito de reagir da forma que lhe é normal. Cada um é cada um. É preciso respeitar quem está passando por esta terrível e dilacerante realidade. Você não sabe o que ele sente. Ainda que tenha passado pela mesma situação... 
       Tive medo. Medo da morte. Quem não tem? Medo da dor da morte. Morrer dói. (Eu já assisti à morte de minha avó e de meu pai). Tive medo do desconhecido. A situação pós-morte é uma incógnita...  Mesmo confiando nas Palavras do Senhor: "na casa do Pai há muitas moradas." tive e continuo tendo medo.
        Senti muita tristeza por ter que partir. Aos 41 anos de idade eu me julgava tão nova ainda! Quem não tem vontade de viver muitos anos, ter saúde, ser feliz, realizar-se financeiramente e todos os inúmeros "...mente" a que almeja?
         "A tristeza já levou a muitos", diz a Palavra. A depressão é a doença da tristeza. Mesmo que você reaja, não a cultive, a situação independe de sua vontade. Tudo se agrava ainda mais  quando já se tem predisposição genética para a ela.
         É uma doença mental e tem que ser tratada por psiquiatra, com psicanálise e remédios.
         Conversar é muito bom. Mas conversar sobre a doença, quando não se sabe no que vai dar, é cutucar a ferida ainda sangrando. Dói. Não gostei da psicanálise logo após a cirurgia. Precisei e preciso até hoje dos remédios. Já foram mais fortes. Deixei de usá-los por conta própria quando achei que podia. Não o devia ter feito. Foi desastroso. Vieram os novos exames e me vi novamente fragilizada. Ah! Nem me incomodo se lhe passo a idéia de ser a mais fraca das criaturas quando tive que enfrentar esse monstro que é o câncer! Não vou é fingir que fui forte. Duvido que alguém seja forte o bastante para tirar tudo isso numa boa!
       Aconteceu que, "após os cinco anos", voltei ou fundo do poço quando chegou a hora de um novo "clister opaco". (Soube que, atualmente, há outro exame para substituí-lo). Senti uma enorme angústia. A espera pelo resultado minou todo o controle que conseguira alcançar.
         Aprendi que não se brinca com a depressão. Não mais interrompi o tratamento.
          A depressão pós-câncer é mais uma doença com a qual se tem que conviver. Terrível. Taquicardia (parece ter hora marcada para surgir). Medo de ficar sozinha (alguns querem a solidão). Desinteresse pela aparência. Cortar as unhas e tomar um banho eram atividades que eu executava com enorme dificuldade.
         Quando experimentei a depressão em profundidade, o que me causou maior espanto foi a impossibilidade de sorrir ou chorar. Os músculos ao redor dos lábios enrijeceram. Também, você há de convir:  achar graça de quê?
       Joguei-me nos braços d'Aquele que é o Senhor. E lhe pedi como uma criança. "Dê-me, Senhor, uma passagem bíblica para orar com ela até que eu melhore um pouco"! "Salmo 6", o Senhor colocou no meu coração.
        Durante meses e meses, mais de três tenho certeza, apenas lia o salmo. Um dia, lá pelo quarto mês, levantei os olhos até o título: "Oração no Sofrimento". Caí de joelhos e já a chorar. Chorei como uma criança e como não conseguia fazer há muito. Deus é o Único que conhece nosso interior, nossas necessidades! Uma pena que Ele permita que o mal nos atinja...  
          Durante a forte depressão, tornei-me uma mendiga da atenção das pessoas. A verdade é que ninguém quer ficar perto de um deprimido. Até os cachorrinhos da casa da minha irmã afastavam-se de mim... Mesmo dentro do ambiente familiar encontrei dificuldades. Isto porque veio de fora (coitada, teve até boa intenção!) uma orientação para que ninguém passasse a mão na minha cabeça... Quanta dor causou-me esta errônea compreensão dos fatos! Quantas lágrimas, desespero, solidão!
         Pude contar com minha mãe, Léia e os cunhados Roberto e Guilherme. "Contar" a que me refiro é ficar próxima mesmo, encostar a cabeça, chorar, lamentar... A gente precisa. Os outros nem imaginam quanto!
         Durante mais de dez anos, ouvi de uma vizinha quase que diariamente este comentário: "antigamente, as mulheres não tinham tempo de ter depressão pois tinham muito o que fazer."
         Quem me dizia isto estava longe de entender que depressão não é ficar triste porque o dia está feio ou coisa e tal. E veja que era pessoa de certa cultura, bem informada...  Até que um dia lembrei-me de explicar-lhe que fiquei assim porque houve uma "causa": foi em decorrência de um evento mórbido, de perda, de catástrofe ocorrido na minha vida. Ela nunca mais abriu a boca. Graças a Deus! 
        Interessante e eficaz foi o tratamento prescrito pelo psiquiatra, Dr. Marco Aurélio Raeder, Itaperuna, RJ: além dos remédios, deveria caminhar tomando Sol e comprar o jornal do dia. Durante a caminhada, podia parar, contemplar a natureza, conversar com algum conhecido.
       Sol é Luz. E a luz espanta as trevas. Espanta mesmo!
       Ao voltar da caminhada, comprava o jornal mais barato. Na época, era O Dia. Eu o jogava sobre um móvel como se dissesse: cumpri a ordem do médico. Com uma semana, comecei a passar os olhos pelos títulos. Na outra, li o resumo da notícia logo abaixo. Alguns dias depois, li alguns parágrafos de uma notícia. Levei tempo para ler uma coluna inteira. Quem tem depressão, não consegue fazer leitura longa. Dá um cansaço mental enorme. O progresso foi diário e constante.
       P'ra final de conversa: "ninguém sabe o que um deprimido sente. Só ele mesmo. Nem quem tenha passado por isso. Nem o psiquiatra sabe: ele reconhece os sintomas e sabe tratar, mas isso não faz com que ele conheça os sentimentos e o sofrimento do seu paciente".




quarta-feira, 23 de novembro de 2011

CARCINOIDE?! QUE RARIDADE!

Tumor raro que se origina do sistema neuroendócrino localizado em diferentes órgãos do aparelho digestivo.

A localização mais frequente é no apêndice cecal, atingindo 50% dos casos, acometendo cerca de 6 indivíduos em cada 1000.

Sua incidência é um pouco mais elevada no sexo feminino e na faixa etária adulta.

É uma patologia de difícil diagnóstico

Desconhece-se a causa da formação desse tumor.

Não produz sintomas, a menos que se tenha propagado ao fígado.

Quando o tumor carcinoide está limitado a uma área específica (p.ex., pulmões, apêndice, intestino delgado ou reto), a remoção cirúrgica pode ser eficaz.

Nem a radioterapia nem a quimioterapia são eficazes para curar o tumor carcinoide.

Foi descrito pela primeira vez em 1882. Somente foi melhor reconhecido em 1948 após a descoberta da serotonina e, posteriormente, com o isolamento da serotonina de um tumor carcinoide em 1953 .

Pesquisas mais recentes têm demonstrado a maior complexidade bioquímica e neuroendócrina do tumor carcinoide.


Que coisa de doido!
Parece até prêmio da Mega-Sena!
E não é que 6 em l000 pobres-coitados são sorteados!
Larga do pé do ser humano, chulé!
Câncer devia dar em pedreira, parede, assombração, lobisomem, mula-sem-cabeça, no raio que o parta, no demõnio, satanás e seus sequazes ...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

CARCINOIDE? PROCEDIMENTOS MÉDICOS POSTERIORES

A segunda cirurgia, em março de 1986, na cidade de Itaperuna/RJ, encontrou-me em situação de total apatia. Sequer indaguei sobre. Mas, ainda no leito do hospital, captei sussuros sobre "pólipos no reto e grande epíplon".
Também não tomei conhecimento do resultado da biópsia.
Entendi, todavia, que as coisas não eram simples.
Teria que fazer novo exame três meses após (retossigmoidescopia e clister opaco).
E seis meses depois também. Um ano, cinco anos e dez anos depois.

No início de julho, iniciei um tratamento que consistia na aplicação da vacina BCG por escoriação nas virilhas e axilas (para aumentar a imunidade, creio eu).
Que tratamento doloroso! O tamanho da agulha deveria destinar-se a uso veterinário (em cavalo, boi, bicho forte, grande e irracional).
Na primeira escoriação, soltei um formidável urro que deve ter sido ouvido em todo o quarteirão.

- Você terá que suportar, disse-me o médico.

Tornei-me indiferente à dor.
O local se transformava em uma ferida.
Foram umas oito aplicações.
Minha irmã disse que sofria demais em assistir a tudo, pois era coisa absurda de se ver.
Também tomava, semanalmente, uma dose da BCG, via oral.

No final do ano li, na revista Manchete, uma reportagem sobre o tratamento do câncer com uma Vacina Japonesa (subcutânea).
Tudo era providenciado na Associação Frei Bonifácio, em São Paulo, no Bairro da Liberdade.
Informação, entrega do material (soro sanguíneo), relatório e pagamento - só no local. Não havia intermediário.
Léia, minha irmã, residente no Rio de Janeiro, contactou Samira Saba, em São Paulo, através de conhecidos na Petrobrás. As duas tornaram tal "tratamento alternativo" viável para mim.
Meu médico se referia a ele como "macumbinha japonesa".
A médica do Frei Bonifácio, Dra.Neide, sugeriu que meu tratamento fosse supervisionado por um profissional no Rio.

Foi aí que conheci o Prof. Dr. Hélion Póvoa Filho. Também poeta e escritor. Um homem educado, amável, agradável e esperançoso.
Dr. Póvoa prescreveu-me, por longa data, selênio e zinco e um tal "fator de transferência..." de que não me lembro bem.
Muito tempo depois soube que Dr. Póvoa é esotérico. Problema dele. Só estou registrando o que me vem à memória.

Assim fui levando a vida.

Anos depois, meu médico, Dr. Edyomar Vargas, Itaperuna/RJ, comentou que a lesão no reto fora maior que a do apêndice.
Aconselhou-me a aproveitar o tempo com que Deus estava me presenteando.



terça-feira, 15 de novembro de 2011

CARCINOIDE. ARRUMANDO A MALA.

Que horror a primeira noite!
Minha cabeça foi invadida por uma confusão avassaladora.
Fui acometida por tamanho medo e nervosismo que suei uma quantidade nunca vista.
Mamãe e Fátima, minha cunhada, trocaram minha camisola umas nove vezes no mínimo.
Quase dava para torcê-las. Nunca ouvi falar em algo assim...
Pedi, desesperadamente, que mandassem chamar os meus desafetos para eu pedir e dar perdão.
Foi uma luta até me convencerem não ser necessária a presença das pessoas. A minha intenção já contava diante de Deus.
No dia seguinte, Lúcia, minha irmã, trouxe Padre Afonso, SCJ, para ouvir-me em confissão. A pedido meu. Havia uns quinze anos que nem da missa participava. Só fazia minhas orações em casa e pronto.
Logo que pude, adquiri uma Bíblia. Li os quatro evangelistas de um só fôlego, tamanha era minha sede de caminhar para Deus.
Missa e comunhão dominical tornaram-se imprescindíveis para mim.
Foram decisões pessoais e apressadas tendo em vista minha partida iminente.
Era custoso dormir. Pior, ainda, (imaginem!) era o despertar. Tremia de susto ao achar que já estava no andar de cima!
Quanta fragilidade a do ser humano!
Ó meu Deus, como suportei tamanho sofrimento!
Dei um trabalho fenomenal à minha mãe, irmãos e cunhados. A ajuda deles foi decisiva para que eu conseguisse, muito lentamente, soerguer-me.
A visita de tia Lila, todas as tardes, deu-me, também, muita força. 
Doente necessita de visita e a de tia Lila era especial. Era minha tia e amiga. Uma grande amiga!
Foi ela quem me convenceu a procurar outro médico para ouvir sua opinião a respeito.
Antes da apendicectomia, tivera sangramento no reto.
O médico achou, pois, necessária nova cirurgia para "inventariar" os órgãos.
Que termo mais sinistro "inventariar". Só faltava  realizar a partilha dos bens!
Naquela altura, sentia-me como uma boneca de pano: sem vida, vontade nem interesse.
Mas a decisão tinha que ser exclusivamente minha.
FUI!