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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

VARRE-SAI, A COCHEIRA DO CABLOCO


      
      A cocheira, ou estábulo, pertencia a um senhor cujo apelido era Caboclo.
      Aqui em Varre-Sai, o termo usado era cocheira mesmo.
      Até uns quinze anos atrás, o cavalo era o meio mais comum de locomoção dos homens que vinham da zona rural.
     Com a facilidade de aquisição da motocicleta, ninguém mais anda a cavalo.
     Um fato que se observava, naquela época, era o de muitos cavaleiros amarrarem seus cavalos em árvores ou postes. Tratava-se, imagino, de pessoas pobres ou que pouco se importavam com os hábitos de higiene. Os animais faziam uma grande sujeira na porta dos moradores.



     Os cavaleiros mais educados ou com melhor poder aquisitivo, deixavam o animal na cocheira. Podiam até pernoitar. Ali, havia sombra e cochos com água, capim cortado, sal.
     Seu Caboclo era o dono e, também, o cuidador dos animais.
     A cocheira ficava situada na Rua Bernardino de Oliveira Santos (conhecida como Rua do Meio) em uma casa entre a de dona Nadir e a de Maria de Lourdes Tupini de Figueiredo. Muito mais tarde, quando a cocheira foi desativada e, posteriormente, demolida, quem morou na casa de seu Caboclo foi dona Helena Amitti. 




      Seu Caboclo era casado com uma "mulata" de rosto bonito e muito simpática: MADALENA.
      O termo "mulata" não é usado, aqui, no sentido pejorativo. Significa que dona Madalena era filha de uma escrava africana, ou afro-descendente, e de um homem branco.
      A mãe de dona Madalena era "a escrava" de nome Mafalda. Gostaria de saber muito da história de Mafalda. Sei, apenas, que foi adquirida pouco antes da Abolição da Escravatura.
      Quando trabalhei no Cartório do Registro Civil e de Notas de Varre-Sai, RJ, li a escritura de compra e venda da escrava. Fiquei impressionada e nunca me esqueci do fato. Era uma transação como a de compra e venda de uma casa ou de um terreno. Coisa absurda!
      Quem quiser, pode ir ao Cartório e pedir a segunda via da referida escritura. Acho que pode. Só se o Livro foi transferido para outro Cartório da Comarca de Natividade. Ou, quem sabe, a expedição não seja permitida a pessoas estranhas à transação efetuada lá no século XIX. Vai pagar um bom dinheiro, pois o preço tem relação com o tempo em que o arquivo vem sendo guardado.
      Madalena era dona de um colo muito gostoso. 
      Fui lá e pedi para ela furar minha orelha. Queria colocar brincos. Ela riu bondosamente e me mandou entrar. Pegou uma rolha de cortiça, uma agulha e linha. Deitei-me em seu colo para que fosse executado o procedimento. Que colo macio! Tão aconchegante, tão agradável... Apesar de não ser bem cheiroso, quisera eu ficar aninhada ali por muito tempo, até dormir...
     Era colo de mãe. Na verdade, o colo de dona Madalena era o colo da mãezona de Varre-Sai. Ela foi parteira.
     Parteira do tempo da italiana dona Antônia Ridolphi. 
     Muitas parturientes de Varre-Sai foram assistidas por dona Antônia. Muita higiene, muitos cuidados. Mas ela contava às pessoas presentes (marido, avós materna e paterna, etc.) como foi o parto da fulana ou da sicrana.
     Por tal motivo, havia as que preferiam os cuidados de dona Madalena.
     O jeito dela era outro. Muito engraçado, porém, nada de original. Era assim em muitas partes do interior do Brasil de então.
     Dona Madalena mantinha uma telha aquecendo sobre as brasas do fogão a lenha e nela depositava azeite de oliva. De vez em quando, mergulhava a mão no óleo para examinar se a criança já estava chegando!!!
     "Varre-saienses" ou "varressaienses" da minha geração! Pode até haver exceção, mas viemos ao mundo com a ajuda de dona Antônia Ridolphi ou de dona Madalena do Caboclo...
     Acrescento, considerando o registro contido nos comentários de vários conterrâneos, o nome da "parteira" dona Albertina Machado Vieira, esposa do senhor Lindolfo, farmacêutico prático que lia muitos livros de Medicina e falava francês fluentemente.
      Sinceramente, a omissão foi involuntária. Meu objetivo inicial era falar do Caboclo e da Madalena e emendei com os partos...
      De fato, dona Albertina, já com técnicas mais apuradas, trouxe à luz muitas crianças de nossa terra, inclusive dois de meus irmãos. Ambos da década de 50.
      Dona Albertina marcou sua passagem aqui na Terra. Por isto Deus a deixou entre nós por mais de 100 (cem) anos.


Obs.: O gentílico de Varre-Sai ainda não está bem definido. No dicionário Aurélio, é "varre-saiense". Em outros sites, encontra-se "varressaiense". Até "varresaiense" encontrei!