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terça-feira, 17 de abril de 2012

A Casa - Vinicius de Moraes



A casa

Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque na casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque penico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na Rua dos Bobos
Número Zero.



Para criança? Que nada! Há casa assim mesmo. Parede que não é parede. Telhado que não é telhado. Porta que não é porta. Banheiro que não é banheiro. Piso que não é piso. Moradores que não são moradores. Tudo uma mentira pura.

Casa fantasma. Ninguém pode morar nela não. Se tentar, verá que está no meio da rua. Todo mundo vê e sabe o que acontece dentro da casa.

É melhor ficar sem casa mesmo que ter uma "faz de conta", onde todo mundo manda e nela não há o mais indispensável possível que é o amor entre os moradores.

Xô, casa mentira pura!





segunda-feira, 9 de abril de 2012

CLÁUDIO BESSERMAN VIANNA, "BUSSUNDA"



   Quem não tem saudades do Bussunda?

    Quando li sobre o lançamento do livro "BUSSUNDA, a vida do casseta", do escritor Guilherme Fiuza, em 2010, fui à livraria o mais rápido que pude e o adquiri.


      Bussunda significa uma lembrança importante na minha vida. Integrava o elenco do primeiro programa de televisão a que assisti após o início da minha noite dos horrores (postagem Carcinoide?!).


      Meu sobrinho Ricardo, um adolescente na época, aconselhou-me: veja este programa que a senhora vai gostar. Vi. Que pessoal maluco e tão engraçado! Humor absolutamente novo. Ocupou minha mente até o sono chegar. Tornei-me uma espectadora fiel. A principal figura era, sem nenhuma dúvida, o Bussunda.
     
      Não esperava que a história da sua vida fosse  repleta de fatos importantes, emocionantes e de valor histórico para a TV brasileira.


      Outra coisa que me chamou a atenção:  o amor de seu irmão Sérgio (Sérgio Besserman Vianna - homem importante no cenário nacional). É algo que se assemelha ao amor de pai mas é diferente, mais emocionante! Amor cheio de atenção, de cuidados... Linda convivência dos dois irmãos desde a mais tenra idade! Cheguei a sentir inveja. E que família bem estruturada, acolhedora, feliz! 

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       Trechos do livro:


           Nota do autor.
       Em 13 de julho de 2006, me chamou a atenção um artigo em O Globo com o título "Bussunda Besserman Vianna". Eu sabia que o autor, economista, ex-presidente do IBGE, era um homem preparado...
       ... seu irmão mais velho, Sérgio Besserman Vianna, abria o peito em público. O artigo escrito àquela altura parecia o cumprimento de uma missão, um tanto inusitado: avisar que o Brasil precisava conhecer Bussunda. Ou melhor, Cláudio."
       Sem o Cláudio não poderia haver o Bussunda", explicava o economista. Seu texto trazia uma senha: o humor sacana do irmão que conquistara o país provinha de uma densa história familiar, humana e intelectual.
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      " A reunião familiar dos Besserman Vianna em 1982 terminou com um acordo vitalício: em caso de morte ou invalidez de Luiz Guilherme e Helena, Sérgio e Marcos - já despontando como economista e médico promissores - assumiriam a responsabilidade pela sobrevivência pelo irmão caçula.
       Cláudio queria ser Bussunda na vida. Isto é, não queria nada.
       
       Em 1980, os publishers da Casseta Popular decidiram que precisavam de reforços para redigir o jornal. O problema de Beto, Hélio e Marcelo, como estudantes de engenharia, era falta de tempo. Precisavam de parceiros com o problema oposto, e foram ao lugar certo para recrutá-los: a praia.
       Um deles era o famoso Bussunda. O outro era... Cláudio Manoel.


       Como boa mãe judia, Helena Besserman era severa e controladora quando se tratava de forjar o caráter dos filhos. Os filhos podiam ser o que quisessem, desde que seguissem uma religião suprema: a leitura.


       A cada dia que passava, Cláudio parecia estar fazendo tudo certo para ser, rigorosamente, o pior.
       Nos almoços dominicais... - o avô, Ary Siqueira Vianna, que fora senador pelo Espírito Santo- ... no momento em que o clã se ufanava da cidade de Vitória... Bussunda veio com a sobremesa amarga: 
       - Gente, vitória é vitória. Aquilo lá é no máximo um empate, né?
      
       Certa vez, Sérgio ficou três dias sem vê-lo sair do quarto.
       - E aí, Cláudio? Tudo certo? Vamos dar uma chegada lá embaixo?
       - Estou com azar.


       Sérgio Besserman já era um economista da PUC, quando Bussunda, aos 18 anos, recebeu junto com Cláudio Manoel o chamado de Beto Silva, Hélio de La Peña e Marcelo Madureira para integrar a Casseta Popular.
      Homem da estratégia e da excelência, Sérgio leu a Casseta Popular e teve uma única certeza: aquilo era bom, e ia longe.


      ... noite de 28 de abril de 92 ... estreia do Casseta e Planeta Urgente...


      ... Flamengo. Para Bussunda, uma religião.
     
      Os irmãos Besserman eram frequentadores da colônia fundada por judeus progressistas no interior do Rio de Janeiro. O garoto aproveitava as temporadas... para uma boa economizada nos banhos. Em certa ocasião, chegou a uma formidável
poupança de cinco dias a seco. No mercado do esculacho, começou a circular uma contração de Bessermen com Sujismundo ...
     
      Na UFRJ, onde estudou ... Bussunda virou técnico de futebol. Foi escohido por aclamação treinador do time feminino da ECO. Ele de fato sabia tudo de bola, e não era um teórico de arquibancada.
     


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      Aí o Casseta e Planeta fez o maior sucesso na TV Globo, como todos os brasileiros sabem.

      Os irmãos Besserman solicitaram nova reunião familiar, agora para reivindicar os cuidados,caso se fizessem necessários, de Bussunda, a estrela-mor da família.

       Agora é ler o livro. Pode ler. Vale a pena.

     Abaixo, a foto de Sérgio no lançamento do livro sobre a vida do irmão.

Que irmão tão querido teve o Cláudio/Bussunda!


 






domingo, 1 de abril de 2012

LUTO DA FAMÍLIA SILVA


       
       UMA CRÔNICA DE RUBEM BRAGA



        A Assistência foi chamada. Veio tinindo. Um homem estava deitado na calçada. Uma poça de sangue. A Assistência voltou vazia. O homem estava morto. O cadáver foi removido para o necrotério. Na seção dos "Fatos Diversos" do Diário de Pernambuco, leio o nome do sujeito: João da Silva. Morava na Rua da Alegria. Morreu de hemoptise.
       João da Silva - Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os joões da silva. Nós somos os populares joões da silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós pertencemos, como você, à família Silva. Não é uma família ilustre; nós não temos avós na história. Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos o índios. Depois fomos os negros. Depois fomos imigrantes, mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam nosso nome. E por engano. Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. Às vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de família. Usamos o sobrenome "de Tal". A família Silva e a família "de Tal" são a mesma família. E, para falar a verdade, uma família que não pode ser considerada boa família. Até as mulheres que não são de família pertencem à família Silva. 
      João da Silva - Nunca nenhum de nós esquecerá seu nome. Você não possuía sangue azul. O sangue que saía de sua boca era vermelho - vermelhinho da silva. Sangue de nossa família. Nossa família, João, vai mal em política. Sempre por baixo. Nossa família, entretanto, é que trabalha para os homens importantes. A família Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa família. Nós auxiliamos várias famílias importantes na América do Norte, na Inglaterra, na França, no Japão. A gente de nossa família trabalha nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mato, nas cozinhas, em todo lugar onde se trabalha. Nossa família quebra pedra, faz telhas de barro, laça os bois, levanta os prédios, conduz os bondes, enrola o tapete do circo, enche os porões dos navios, conta o dinheiro dos Bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz tudo.
        Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política...

                                                                                 Rubem Braga  


Crônicas Escolhidas
Rio de Janeiro, José Olympio, 1951.




Obs.:
E não é que a família "Silva" teve, recentemente, um dos seus membros a governar o Brasil?
Tivemos, por dois mandatos, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
E para orgulho da família "Silva": independente dos que o "aplaudiram" ou não, o Presidente teve reconhecimento mundial, não só como um mero político, mas como um "estadista"!!!
Ainda fez sua sucessora que aí está a governar o Brasil: Presidente "Dilma Roussef." A primeira mulher eleita Presidente do Brasil!