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domingo, 30 de junho de 2013

Clarice Lispector




     Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
     Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso.
     Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
     Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
     Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
     Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
     Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
     Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
     Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
     Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
     Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
     Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
     Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
     Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
     Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade...
     Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
     Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
     Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
     Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram... Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
     Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
     

quinta-feira, 20 de junho de 2013

VARRE-SAI / VELÓRIO NO "MACUCO"




       "Macuco" é a denominação de um sitio localizado na zona rural do Município de Varre-Sai, RJ, Brasil.

       O velório era de um chefe para de família paupérrimo.
       O Governo Federal ainda não havia instituído a ajuda da "Bolsa Família" que beneficia a tantos! Há até os que a recebem indevidamente...
       Pobreza extrema. Cama? Que nada! Dormiam em esteiras colocadas no chão.
       Onde colocar o defunto? Não havia sequer um banco de madeira...
       Como era habitual em casos assim, fizeram dois buracos estratégicos em paredes da sala. Neles, colocaram dois bambus grossos que atravessavam a parede e ainda sobravam pontas para outro cômodo da casa.
      Sobre os bambus, colocaram uma tábua onde depositaram o corpo inanimado.
      O caixão ainda estava sendo confeccionado por Eliazar Gomes Primo que, muitas vezes, dava martelada noite a dentro até entregar o caixão.
      Era caixão de taipá. Madeira fraca, leve e barata, muita usada na época em construções para fazer andaimes. Forrava-se o caixão por dentro e por fora: de tecido branco, por dentro; de tecido roxo, por fora.
      O tecido roxo tinha estampas douradas ou prateadas. Era um tecido fúnebre mesmo. Dava arrepio só de ver um caixão destes...
      Conta-se que Eliazar bancava a despesa toda, na maioria das vezes. Só cobrava quando a família queria tecido melhor para revestir o caixão.
      Seus préstimos nunca foram negados. Tinha isto como uma missão.
      "Seu" Eliazar ainda tinha uma grande paixão: o Serrano Esporte Clube. Cuidava gratuitamente do gramado do "Estádio dos Eucalíptos" que, mais tarde, recebeu o nome de "Estádio Torino Fabri".
      Bem que podia ser nome de rua... Ou do estádio de futebol, caso seja necessário retirar o nome de Torino Fabri que, como Eliazar,  era um grande apaixonado pelo futebol.
      Dentre os presentes no velório, encontrava-se Antônio Barzani, então funcionário do posto de gasolina do senhor Bituta. Conta-se que ele não perdia um velório por nada...
      Lá pelas duas horas da madrugada, Antônio Barzani saiu sorrateiramente da sala. Desceu os degraus de uma escada de madeira da porta da sala. Retirou a escada.
       Voltou pela porta da cozinha. Sentou-se em uma das pontas de bambu que sustentava o corpo e que sobrava para o outro lado. Balançou pra lá e pra cá. O defunto, lá dentro, também começou a balançar.
       Antônio saiu rapidamente. Foi para a frente da casa ver o povo sair.  Deu boas gargalhadas. O pessoal saía feito doido, caindo da porta de onde fora retirada a escada! Voavam e caíam no terreiro... Eram os "machos" do velório!
      Não sei o porquê de "Barzani", já que Antônio era irmão de Gumercindo Alves Moreira. Só sei que ele tinha poucas e boas para contar... Já é falecido. Alguém mais deve conhecer outras de suas façanhas... São coisas que precisam ser contadas. Fazem parte da história de Varre-Sai...


sábado, 1 de junho de 2013

DOMINGOS JANNOTTI E O HOSPITAL DE VARRE-SAI, RJ



       Início da década de cinquenta em Varre-Sai

       Domingos Jannotti Netto toma uma decisão de suma importância para o povo de Varre-Sai: procura alguns senhores influentes, expõe-lhes uma necessidade local e sugere que se reúnam para tratar do assunto.
       Farmacêutico formado no Instituto Granbery, Juiz de Fora, MG, Domingos Jannotti Netto fez da sala de sua casa não só uma farmácia, mas também local de atendimento às pessoas doentes que vinham em busca de socorro, já que Varre-Sai, volta e meia, ficava sem médico.
      Quem fosse oriundo da zona rural, não tivesse onde se hospedar e necessitasse de cuidados por horas seguidas ou pela noite a dentro, permanecia na sua casa mesmo.
      O assunto tratado durante a reunião e exposto por Domingos Jannotti aos presentes (um deles era o tabelião José Vargas de Figueiredo) foi o seguinte: 

"alugar uma casa para abrigar os habitantes da zona rural que necessitassem permanecer por horas/dias na cidade para tratamento de saúde".
      
      Durante a reunião, alguém (ele citou o nome, mas não o encontrei na memória) sugeriu que fosse construído um hospital em Varre-Sai. 
       Ideia acatada e seguida de um movimento bem coordenado e executado com coragem, decisão, boa vontade e honestidade.
      Foi o próprio Domingos Jannotti Netto quem me narrou o fato acima e acrescentou que, para a lembrança não ficar perdida no tempo, escrevera tudo e deixara aos cuidados de Memélia/Amélia Vargas de Oliveira, filha de José Vargas de Figueiredo.
      Eis aí como surgiu o Hospital São Sebastião de Varre-Sai...
      Durante sua trajetória, enfrentou diversos vendavais, mas se manteve em pé! O povo sempre acorreu com sua contribuição às campanhas beneficentes para o Hospital.
       O que mais me encanta em toda a história é que Domingos Jannotti Netto nem nasceu em Varre-Sai! Nascido na Itália, chegou ao Brasil com cerca de 09 (nove) anos de idade.
       Tive a oportunidade de conversar assim com ele nas minhas viagens de fim de semana de Natividade a Varre-Sai. Ele, já bem idoso, por várias vezes regressando da casa de uma das filhas residentes em Bom Jesus do Norte, ES. 
      Um grande homem. Nunca teve pretensão de ser rico e, sim, de contribuir para o bem da comunidade. Ele mesmo o disse. Não tinha convívio tão grande com ele a ponto de deduzir isto ou aquilo a seu respeito. Só estou contando o que dele ouvi.
       Também participou da criação do Ginásio Varre-Sai (Campanha Nacional de Escolas da Comunidade/CNEC), outro acontecimento de primordial importância para a cidade. E nos ensinou Matemática.
       Tinha ele um sonho. Recebia, anualmente, convite para a festa do Granbery onde se formara. Sabia o que acontecia nos encontros de ex-alunos: o ex-aluno tinha a oportunidade de narrar um acontecimento da época de estudante.
       Ele desejava ir lá, um dia, e contar um fato engraçado do qual se lembrava sempre. Ei-lo: durante o recreio, era comum ouvir o ensaio da Banda Marcial do Instituto sob a responsabilidade do músico/maestro "Brito".
      E a turma ficava gritando lá do pátio: "toca, Brito! Toca, Brito!"