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domingo, 1 de dezembro de 2013

AIDÉTICO.




      Decididamente, nada neste mundo acontece por acaso. E "d
e todo mal se tira um bem" - é verdade mesmo.
      Conheci Joel, ex-segurança no Rio de Janeiro e lutador de capoeira ou algo assim. Ao conhecê-lo, meus conceitos e preconceitos viraram de pernas para o ar.
      Tudo começou quando me encontrei com uma senhorinha que se tornara conhecida devido aos cumprimentos que trocávamos durante minha caminhada matinal, em Natividade, RJ. 
      Falou-me de um rapaz morador ali do bairro e que estava com problema no pulmão. Convidou-me para ir até à casa dele.
      A casa era localizada atrás do antigo Forte dos Pneus, perto do Hotel Moacir. Estava toda fechada e o silêncio reinava, apesar de haver crianças. A esposa, uma jovem baiana, tão bonita e tristonha, levou-nos até o quarto escuro onde se encontrava o marido.
      Na verdade, não vi o homem. Todo embrulhado em cobertores, encolhido, virado para o lado da parede, com algodão nos ouvidos. 
      Entre gemidos, pediu desculpas por não se virar porque conseguira, há pouco, encontrar uma posição mais confortável e que trouxera alívio ao seu corpo dolorido.
      Logo, logo fomos saindo. 
      Na varanda da cozinha, a esposa deixou a senhorinha ir adiante e contou-me em voz bem baixa: "Joel está com aids, mas falamos que é outra doença porque, se o povo daqui descobre, pode ser que tenhamos que sair às pressas".
      Havia muito preconceito no início. A população, desinformada, tinha medo do contágio.
      Acho que o início da epidemia de aids foi em torno de 1985. A doença estava restrita a dois grupos "de risco": homossexuais e usuários de droga injetável. Ainda não estava disponível, como hoje, todo o tratamento fornecido pelo Governo. 
      Voltei daí uns três dias. Fomos Lúcia, minha irmã, Sebastião Otithes, meu cunhado e eu. Combinamos que a visita seria nos padrões recomendados pela SSVP-Vicentinos.
      Joel estava "tentando" beber água. Não aguentava engolir o líquido... A mulher fazia massagem na região do esôfago e ele fazia nova tentativa. Que tristeza ver uma pessoa sentir dor para engolir água...
      Amarrara pedaços de corda em cada perna, acima do tornozelo, para aliviar suas dores. Superstição -  descobri depois.
      Falou-nos do seu trabalho no Rio de Janeiro, da cirurgia a que se submeteu, do sangue que precisou receber (e que deve ter sido a causa da contaminação), da Igreja em que se casou, ao lado do Shopping Rio Sul. Mandou a mulher pegar o álbum com as fotos do casamento. Um pequeno álbum desses que ganhamos ao revelar fotos. 
     Que dor atingiu meu coração! Que arrependimento!
     Até então, não me compadecia de nenhum caso de AIDS. "Procurou a doença", pensava eu.
     Visitar Joel e assistir a todo o sofrimento a que estava/está sujeito um aidético - eis a oportunidade que Deus me proporcionou para me tornar mais humana e mais tolerante em relação aos homossexuais que, naquela época, eram os mais vulneráveis à doença.





      
       

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